Nosso anuário, o ComPêndio Fla To Lancy, entrevistou o
senhor filósofo, bobo da corte e membro da banda intelectualóide ministerial
patetista, Sr. Roboboberto Mangabobeira Ulque
Fla To Lancy – Qual é seu diagnóstico sobre a integração
regional?
Roboboberto
Mangabobeira Ulqe – A convergência desse processo econômico diagnosticado
por cabeças outras não significa e não significará a unanimidade de pensamento
do conglomerado econômico disposto no centro sul da América ou qualquer outro
espaço onde as oligarquias da não democratização buscam um que de não
produtividade embarcados na possibilidade utópica do produtivismo antagônico
quando precisamos construir um processo capacitor que qualifique toda essa
demanda já pavimentada na escola bolivariana que agora ainda que claudicante
possa ser aventada através da cultura dos povos latinos que ainda que apenas
latam não são vira latas a meu ver embora possa não ser exatamente assim.
Qual o objetivo
dessas visitas?
Dos três objetivos principais preciso qualificar dois como o
princípio básico da premissa do desenvolvimento da minha ideia de
desenvolvimento que automaticamente converge para um processo de elevação do
continente que busca engajar não apenas nosso país com seus vizinhos mais
próximos como buscarei através da Unesul unir não apenas o sul, mas o norte e
todos os pontos cardeais incluindo o sudeste e o boreste. A aliança cretina e
engodada do Mercosul foi até agora um princípio que não auxiliou no sectarismo
comercial e ainda que os governos tenham conseguido escamotear ideias não
explicáveis devido a premissa de que o governo precisa esconder para governar,
a Aliança do Pacífico é algo que deverá ficar no futuro como um legado aos bo e
não bolivarianos.
Quais medidas concretas?
Continentalmente falando digo e repito o que venho dizendo
nas minhas visitas ao Paraguai, a Bolívia, a Argentina, ao Chile, ao Equador, a
Colômbia, ao Uruguai, e a Caracas e a Venezuela e agora também a Cuba ao México
e também aos Estados Unidos da América e de outros continentes incluindo o
Canadá. Repito aqui o que fala um amigo meu quando diz que seu dinheiro não dá
para ir para o Canadá, mas para a cana dá; isso é o que estamos vivenciando
hoje e que se arrasta desde o século passado e não é mais útil. O modelo alemão
como podemos ver foi vencido nas teorias do louco e mais que alugado comunista Groucho
Marx, não é possível que somente nós intelectuais de Harvard enxerguemos isso.
O foco foi desfocado do processo insustentável da Amazônia e o agronegócio
deveria institucionalizar-se na capacitação tecnológica do não absurdo, o
paradoxo de todo o processo desenvolvido no Paraguai desbanca em muito o não
sectarismo alemão. Prova disso tai, o Erei a Magica que acertou em
desconvencionar os modelos do “não desmatamento” tornando-se um pujante
empolgado constitucionalista centrista e cretino de vanguarda tornando o
Centro-Oeste brasileiro um celeiro de soja para o mundo, ainda que à custa do
aviltamento das matas.
Essa agenda seria
implementada de maneira bilateral ou por meio de organismos como Unasul e
Mercosul?
Ainda que seja um defensor da Unasul, no meu ideário não
imagino o Mercosul não fazendo história, então organizar a convergência para a
união das Américas é nó mínimo um ato não crítico de economialismo onde exponho
minha tese simples de que a clareza das ideias fazem com que o mecanismo de
concertação do que está errado acabe quase que obviamente, mais claramente
falando que o concerto se dê não apenas no âmbito da legalidade democrática,
afinal o caudilho do velho espírito é criticar o modelo comercial desde a época
de Celso Furtado e do Raul Prebisch, porém estes, invariavelmente intratáveis,
tendem ao desagravo e não raro insistem em limitar as chances visando resoluções
intempestivas nas intempéries de um caldo insosso chamado neoliberalismo, mas
isso foi predominantemente no passado, a concertação política pode e pede um
ajuste democrático que nosso governo tem a capacidade de instaurar através da
ampliação do consumo e exportação de commodities afora da negativa das oitivas
da esquerda que nem sempre o é quando o interesse é a assertiva do próprio
mercado
Há muita resistência
no governo brasileiro a discutir o Mercosul e conceber modelos alternativos.
A resistência já vem da França, esses garnizézes relutantes
que pensam ser galos e não passam de umas galinhas que cacarejam a verborragia
política não assimilada no processo da nova política díspar do modelo alemão
que deveria vestir algo como uma camisa de força no Sarkozy caso ele vencesse o
último pleito . Ontem ainda, na ausência de sua eminência junto ao congresso
daquele continente, nós do Mercosul, Mercosur para nós latinos e membros das
cadeias produtivas integradas na ausência de um projeto convergente de
desenvolvimento entendemos que a realidade requer medidas superiores a atitude
de avestruz. Talvez de uma capivara, ou de um tateto, mas jamais de uma
avestruz, quem sabe de um texugo. Precisamos eliminar tabus tanto do
pragmatismo antipragmático da pseudo euforia latina advinda da bolha macro
invólucro chinesa. Agora, isso não é o momento de um debate fragmentarista que
não é a favor do Mercosul, ou Mercosur, é o Unesul que está em vias de
evidência, precisamos entoar o canto democrático da nova aurora bolivariana; e
viva o Hugo.
O que o senhor acha
de flexibilizar a união aduaneira?
A flexibilidade não é e nunca foi um processo de
desenvolvimento democrático possível, há que se endurecer sem perder la ternura
como dizia o profeta pouco correto e símbolo do comunismo do assassínio do
culto humano. Precisamos criar um desenvolvimento, um “desarollo” onde o
Mercosul prime a não flexibilização, onde os ajustes não sejam que tudo seja
menos o ajuste, e os parceiros que não se afastarem de eventuais querelas
intransponíveis terão enfraquecido a decisão e isso é certo que não recomendo.
Aqui sem o modelo alemão se faz necessário que endureçamos contra a
desconstrução do Mercosul onde sem que suspeitassem que não somos o que
tentamos mostrar flexibilizássemos as ações desconjuntadas antes que
enxergassem nosso enfraquecimento a olhos vistos.
Qual a maneira de
criar essa convergência hoje, então?
Convergindo, é claro. A convergência é um processo
científico matemático que nada mais é que a conversão, no nosso caso a direita,
embora à esquerda direita nos queira derrubar em um processo que entendo ser
bilateral, porque a qualquer instante eles se passam para “acá”, junto a “nossotros”.
Os primeiros passos rumo à convergência se dá em direção a ela, e superar essa
etapa é garantia de que, se estamos não multilateralizando o processo, mas
justamente e finalmente para dor dos sectaristas intransponíveis, estamos indo
em direção a convergência perguntada por si.
Se houvesse
convergência, qual deveria ser essa agenda revisionista que o senhor defende?
Sou partidário, ainda que único, de que o Brasil é uma potência
catastrófico petista emergente que emperra sem querer imperar ainda que somente
impere no emperramento da máquina do estado, contanto, com características que
proliferam a possibilidade de nos tornarmos o Tigre das Américas, agora que a
China dá sinais de claudicância, não podemos nos esquecer do regime pluralista
mais que abastado de Gatt, onde gatos não tinham vez, nunca lá poderia haver
uma operação Lava Jato, afinal quando eles se utilizavam do Gráfico de Giant o
processo todo se agigantava e é exatamente isso que desde o final do século
passado estamos vivendo não a eminência do rótulo de emergente, o somos.
Devemos pleitear, através de uma estratégia de experimentalismo consensual onde
o mercado se agita, mas a caravana petista passa; entender e deixar que as
formas humanas de coordenação humana executada por nossos imbuídos babuínos
ministros executam não com insignificância parva de um tolo, mas com a
compostura aliada dos aliados nosso tão bolivarianos quando peronistas.
Sua descrição é
exatamente o que a diplomacia brasileira tenta fazer há bastante tempo. O senhor.
está defendendo mais do mesmo?
Como cidadão bebo na fonte do soro fisiológico da fisiologia
não armamentista defendida por setores não privilegiados pelo processo
decisório do partido que antes de discorrer contra a democracia progressista
transformadora, atendeu aos anseios populistas e urnistas do fornecimento do
pão e circo aqueles que nada possuíam, porém possuíam um título. Nada mais obsceno
que acenar ao parvo esquálido com a bandeira vermelha da equanimidade. Onde
estarão no jargão popular dos poetas do caudilho os púlpitos armados além
terra, na aurora póstuma onde acostumar-nos-emos a sentar em torno de uma
fogueira com nossos charutos e uísques rindo-nos do que já não mais será porque
foi. Agora como parte do Staff do bureau ambivalente dono de cadeira cativa na
posteridade revisionista entendo que o mais do mesmo é igual, porém diferente
sob o ponto de vista ambíguo e paradoxal das cadeias produtivas não integradas.
Qual o espaço para
construir convergência na região quando há vizinhos atravessando crises
profundas, como é o caso da Venezuela? O Brasil tem responsabilidades especiais
na Venezuela?
A crise não necessariamente existe, e é nela que
aproveitaremos para desvendar os seus mistérios convencendo-nos e convencendo os
venezuelanos bolivarianos dentro de uma convergência regional que devemos
qualificar a produção, que temos que nos engajar todos nós da Unasul, do
Mercosul e do Mercosur na indispensável concertação regional do continente do
Mercosul, digo Mercosur, numa força de embate jamais vista, não porque não
acreditamos que possamos passar des-avantajados de um processo de reconciliação
fora de acordos comerciais anti crise, não, mas porque sim, uma vez sob a
tutela dos nossos companheiros de luta demonstraremos que nada há que não possa
ser superado com palavras e um bom discurso que, ainda que poucos entendam eles
entendem que nós entendemos e não sabem que não sabemos o que estamos fazendo.
Se a convergência
sul-americana depende da saúde do projeto interno brasileiro, então as
perspectivas neste momento não são boas, correto?
Não entendo sua questão como uma questão válida. Já explanei
que a convergência tem seu parecer no desenvolvimento de um processo que se
exauriu, porém o que se exauriu não necessariamente é o processo, mas os
causadores do processo, ainda que não possa dizer isso eu disse, porém o fiz
por saber que nenhum dos senhores entendem o que digo, mas falo por agora e
quando isso for entendido estarei construindo uma nova estratégia para falar
algo que os envolva no novo processo que estarei desenvolvendo; muito além das
divisões partidárias um novo projeto Estado, não um plano de fuga, mas um plano
de manutenção do estado vigente. Sabemos, nós do partido que o país ainda
possui reservas intocáveis. E o que isso significa? Que elas e nós, ainda que
sejamos intocáveis, podemos tocá-las, se nosso discurso continuar com essa
divisão partidária que provoca a embromação, o rebuliço onde ninguém se
entende, mas a supervisão constitucionalista do processo desenvolvido
nacionalmente tem por base o continuísmo ainda que ninguém saiba de nossa
politicagem da isca adulativa que seduz, e se não o faz, e, o que isso não
consegue; a ameaça consegue.
O senhor então está
otimista?
A crise e suas multilateralidades jamais serão um
capacitador muito menos um capacitor incandescente a disseminar alternativas de
mudanças. Sou um otimista inato, pois aprendi com os atropelos inquebrantáveis
de um errante positivista que a liberdade tarda, mas não falha e no iluminismo
de minha maturidade compreendi o que repasso aos meus pupilos em Harvard ou em
qualquer colegiado apocalíptico que visa a estruturação e a concertação de um
poderio econômico beneficiado pela vitalidade assombrosa do homem latino e
latinizado ainda que europeizado mesmo porque somos nós quem estamos pisando o
novo estado; enfrangalhando-os, dizem uns, com altivez digo eu.
De que forma a China
facilita ou atrapalha esse processo?
O continente asiático como um todo é um gigante que tem
muito a aprender com o populismo do capitalismo patetista, digo, petista dentro
de um processo econômico que faz inveja a tecnologia mais avançada. Digo que a
China só atrapalha o processo, porque se ela fosse menor não teria a
desenvoltura descabidamente insana de um gigante ingovernável. Ainda que
possamos presenciar a derrocada de uns e a intempestividade das agruras de
outros que insistem em subir onde não devem, devemos entender o que se apossou
do processo inimaginável há mais de dois mil e quinhentos anos com Platão na
Grécia. Digo que apenas por isso a China é um estorvo ao crescimento
democrático com sua opulência comunista.
Mas a América do Sul
está longe de ser unida nesse quesito.
Não esperem que responda com incertezas. A quintessência do
que vive a nomenclatura serena que esboça o sorriso da Mona Liza não
necessariamente passa por este escaninho escuso do cérebro humano que espera o
inesperado. E tudo certo está. Somos e estamos unidos no orgulho bolivariano
ainda que não o sejamos. Temos um peronismo que insiste com a dona Cristina, mas
isso não é e não será desanimador dentro de um priorado que busca a priorização
dos acontecimentos que todos pensam; isso seria iludir o ilusório. As
pontiagudas facas que enfrentam nossos muros não são inquebrantáveis e nossa
união se faz à surdina, ainda que ninguém nos veja juntos, o estamos e, mais do
que nunca, partilhamos e partilharemos por muito tempo dessa união que não se
faz a olhos vistos, porém que há, há. Não busco aqui me vangloriar do posto
avantajado intelectualmente falando, afora a beleza ilusória que me envaidece,
porém defenderei as ideias do partido da patetice auxiliando no que for preciso
para que o escamote continue acontecendo com essa comunicação distributiva e
alheia ao não querer que enobrece; obrigado.
**
Modelo de desenvolvimento da era Lula está exaurido, diz
ministro
Publicado em 30/08/2015 às 13:04 por John Cutrim
Folha de São Paulo – O modelo de desenvolvimento da era Lula
–o tripé composto por ampliação do consumo, da renda popular e da exportação de
commodities– está exaurido.
Agora, o governo deveria buscar uma nova estratégia, que
passa pela integração produtiva da América do Sul e não se limita ao Mercosul
ou à Unasul.
Essa é a tese de Roberto Mangabeira Unger, ministro-chefe da
secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.
Mangabeira Unger não está pessimista com a situação atual do
país, apesar da crise política e do encolhimento da economia:
“Se não estivéssemos vivendo uma crise ou múltiplas crises,
não estaríamos considerando alternativas. A maior aliada de quem quer
transformação é a crise”, afirma ele, que propõe “uma grande união de
repúblicas sul-americanas, que precisam ter como base a convergência nesse
projeto [de desenvolvimento], não apenas em acertos comerciais como o Mercosul
ou em práticas de concertação política como a Unasul.”
Abaixo, trechos da entrevista concedida à Folha na última
quinta-feira (27), no escritório da Presidência da República, em São Paulo.
*
Folha – Qual é seu
diagnóstico sobre a integração regional?
Roberto Mangabeira Unger – Falta em toda a América do Sul
convergência num projeto de desenvolvimento que dê certo. Esta convergência é
impossível sem a participação decisiva do Brasil. Nossa tarefa prioritária é
organizar uma nova estratégia de desenvolvimento nacional, baseada em
capacitações educacionais e oportunidades produtivas, com uma qualificação e
democratização do processo produtivo. Precisamos construir um produtivismo
inclusivo e capacitador. O cumprimento dessa tarefa nos dá uma grande
oportunidade para avançarmos na união sul-americana. Por isso iniciei uma série
de viagens para vizinhos como Chile, Equador, Paraguai e, na sequência,
Colômbia e Peru.
Qual o objetivo
dessas visitas?
Há três objetivos: explicar a construção da nova estratégia
de desenvolvimento brasileira, com o ajuste fiscal como ponte entre a
estratégia anterior e a nova; engajar nossos vizinhos numa discussão a respeito
das alternativas de desenvolvimento no nosso continente e identificar ações
concretas para ancorar a convergência no modelo de desenvolvimento. Esse
processo vai ajudar a superar sectarismos comerciais, como a divisão entre
Mercosul e Aliança do Pacífico, ou entre países `bolivarianos’ e `não
bolivarianos’.
Quais medidas
concretas?
Com o Equador, o foco é criar um novo modelo de escola média
técnica capaz de priorizar a capacitação exigida pelas novas tecnologias. É
preciso superar o antigo modelo alemão de ensino rígido de ofícios
convencionais, que era útil para o parque industrial do século passado. Também
queremos explorar a possibilidade de um centro de desenvolvimento tecnológico
para promover desenvolvimento sustentável na Amazônia. No Paraguai, o foco é
discutir o modelo agropecuário –recuperação de pastagens degradadas,
industrialização de produtos agropecuários– em parceria com os governadores do
Centro-Oeste brasileiro. Com o Chile, o foco foi educação e o desenho
institucional propício ao fomento de empresas de vanguarda: eles têm uma
indústria extrativa, mas contam com uma classe média educada que gostaria de se
transformar num centro de serviços.
Essa agenda seria
implementada de maneira bilateral ou por meio de organismos como Unasul e
Mercosul?
Sou um defensor da Unasul, mas ela é um mecanismo de
concertação política e de segurança regional. A concertação política é muito
valiosa, mas não basta para produzir unificação. No caso do Mercosul, apesar da
existência de grandes aspirações de união sul-americana, o elemento mais forte
tem sido mercantil. No entanto, o comércio é base estreita demais para uma união
regional. O Mercosul não é um centro de ideias para organizar a convergência de
projetos de desenvolvimento. Não estou criticando o Mercosul, mas ele é uma
base muito limitada para carregar o projeto de unificação sul-americana. Na
ausência desse projeto maior, os problemas comerciais tendem a ser mais
intratáveis. Os problemas comerciais têm maior chance de resolução se o projeto
regional for mais do que comercial. A minha tese é que nós não temos um ideário
amplamente difundido a respeito de desenvolvimento na América do Sul desde a
época de Celso Furtado e Raul Prebisch. Vivemos o período de ascendência do
chamado neoliberalismo, que por sua vez levou a um período em que as bases
predominantes do desenvolvimento na maioria dos países sul americanos foram
ampliação do consumo e aumento da renda popular de um lado, e a produção e
exportação de commodities de outro lado.
Há muita resistência
no governo brasileiro a discutir o Mercosul e conceber modelos alternativos.
Quem reluta em admitir essa discussão mais ampla exibe um
pragmatismo antipragmático. Sou um defensor do Mercosul, mas é necessário
reconhecer suas dificuldades com realismo. O livre comércio entre seus membros
nunca foi completado. E, na ausência de um projeto convergente de
desenvolvimento entre as partes e de cadeias produtivas integradas, a união
aduaneira é visto como uma camisa de força. Não enfrentar a realidade é uma
atitude de avestruz. Quem é a favor do Mercosul não pode ter tabus na hora do
debate. Isso é ser contra o Mercosul.
O que o sr. acha de
flexibilizar a união aduaneira?
Poderia ser feito em algum momento, mas é inconveniente e
impossível no ambiente atual, porque seria visto como uma tentativa de
desconstrução do Mercosul, não de seu fortalecimento. Se avançarmos no
aprofundamento do modelo comum de desenvolvimento, tudo se torna mais possível.
Isso mostraria união e ninguém vai suspeitar que eventuais ajustes sejam um
pretexto para afastar os parceiros. Se flexibilizássemos hoje, a decisão seria
vista como enfraquecimento do Mercosul, então não recomendo isso.
Qual a maneira de
criar essa convergência hoje, então?
A forma mais prática de começar esse processo é país a país,
de forma bilateral, explicando a cada um o que queremos fazer, e identificando
ações concretas que podem encarnar aquele esforço de convergência e servir como
primeiros passos. Depois, haverá uma segunda etapa para multilateralizar esse
esforço. E, por fim, uma terceira etapa para superar os sectarismos comerciais
e políticos que dividem a América do Sul e, assim, ter uma base da qual fazer
revisões da ordem global em temas de segurança, finanças e comércio.
Se houvesse
convergência, qual deveria ser essa agenda revisionista que o sr. defende?
O Brasil é uma potência emergente de características
especiais. Somos o único país de nossa dimensão que emerge sem imperar e sem
querer imperar. Isso não nos exime de responsabilidades revisionistas,
entretanto. Devemos pleitear uma ordem mundial propícia ao experimentalismo.
Devemos resistir à ideia de que todos os países devem aderir a uma forma
específica de economia de mercado que proíbe, sob o rótulo de ‘subsídio’, todas
as formas de coordenação estratégica entre governos e empresas (que os países
ricos de hoje em dia usaram no passado para enriquecer). O sistema de patentes
e propriedade intelectual desenvolvido no final do século 19 ainda concentra a
tecnologia em poucas multinacionais. Esse tipo de convergência não nos
interessa. Queremos liberdade para experimentar, com abertura econômica máxima
e restrição ao experimento mínima. Isso é possível, basta lembrar do regime do
Gatt no passado recente. O objetivo da ordem mundial de comércio não deve ser
maximizar o livre comércio, mas criar espaço para as divergências nacionais. O
objetivo é o pluralismo.
Sua descrição é
exatamente o que a diplomacia brasileira tenta fazer há bastante tempo. O sr.
está defendendo mais do mesmo?
Falo agora como cidadão, não como ministro. Toda potência
emergente na história moderna exibe uma ambivalência: busca um lugar mais
favorável dentro da ordem existente e, ao mesmo tempo, pleiteia uma mudança da
ordem. Uma grande democracia progressista transformadora, como a nossa, deve
carregar no pleito revisionista, e não apenas na busca de um lugar ao sol.
Qual o espaço para
construir convergência na região quando há vizinhos atravessando crises
profundas, como é o caso da Venezuela? O Brasil tem responsabilidades especiais
na Venezuela?
Nós temos responsabilidades, mas nosso caminho não é o da
tutela. Temos de engajar os nossos vizinhos e compartilhar com eles tudo o que
ajude a qualificar sua produção, liberte as pessoas e construa as bases para
uma convergência regional. Meu esforço não é para substituir ou andar em
paralelo ao esforço de concertação política admirável e indispensável que a Unasul
desenvolve. Não tenho instrumentos para propor reconciliação num país onde há
forças em embate. Isso pode ser feito pela Unasul. Minha vantagem comparativa
não é negociar acordos comerciais ou juntar forças que estão brigando. Meu
papel é trabalhar junto com países engajados em buscas semelhantes.
Se a convergência
sul-americana depende da saúde do projeto interno brasileiro, então as
perspectivas neste momento não são boas, correto?
O modelo anterior de desenvolvimento se exauriu. Nossa
tarefa nacional prioritária agora é construir uma nova estratégia nacional de
desenvolvimento com base em educação e produtividade. É um projeto de Estado,
não apenas um plano de governo. Um projeto de desenvolvimento nacional tem der
ser projeto de Estado, e tem de ser discutido e apoiado por uma ampla gama de
forças. O Brasil é capaz de produzir uma grande obra coletiva de transformação
por cima das divisões partidárias.
O sr. então está
otimista?
Se não estivéssemos vivendo uma crise ou múltiplas crises,
não estaríamos considerando alternativas. A maior aliada de quem quer
transformação é a crise. A crise não atrapalha a mudança. Pelo contrário, sem
crise, não há mudança. Esse é o material com o qual estou trabalhando. E o
Brasil tem o benefício de ter uma vitalidade assombrosa, anárquica e quase
cega. Não há país do mundo mais disponível para uma grande construção
transformadora que o Brasil de hoje. O foco deve ser um projeto de produtivismo
inclusivo e capacitador, que se desdobre numa grande união de repúblicas sul-americanas,
que precisam ter como base a convergência nesse projeto, não apenas acertos
comerciais como o Mercosul ou práticas de concertação política como Unasul.
De que forma a China
facilita ou atrapalha esse processo?
Todas as minhas contrapartes nos países que visitei
levantaram a questão. A posição sul-americana comum deve ser a de demandar da
China o compartilhamento de capacitação tecnológica, e não apenas uma relação
pela qual nós exportamos commodities para eles. Por isso, devemos construir uma
posição comum para tratar com eles. Eles não estão atuando na América do Sul
por uma lógica apenas comercial, mas pela lógica da geopolítica de segurança
alimentar. Em todos os países que visitei esse problema foi levantado. Não por
mim, mas pelos colegas ministros dos outros governos.
Mas a América do Sul
está longe de ser unida nesse quesito.
Não precisa esperar termos união para construirmos uma
posição comum. Podemos ter isso em pouco tempo. Já começamos a fazê-lo. Tenho
certeza de que nossos diplomatas estão muito conscientes desse problema e,
muito eficientes, já começaram a resolvê-lo. Eu apenas estou dando uma pequena
ajuda.