A roda mascarada da autossuficiência
Esta
semana a cidade de Sta. Maria se manifestou em polvorosa após um ano da
tragédia na boate. Entre tantos absurdos assistidos, tiro algumas conclusões
(não irei me demorar aqui na batida: “o que aprendemos com...”). A maioria
delas voltada ao que já conhecemos: descaso; injustiça; fazer o que?; até onde
a justiça fará diferença; e para aqueles que foram indiciados, 28 ao que
parece, - e para algumas dezenas que rezam para que as esqueçam - algumas
questões fundamentais permanecem.
Quantos
pensarão algo de valor – com inteligência - sobre sua responsabilidade no
ocorrido; sobre o que deveriam ter ou não ter feito, e assim por diante? Ou, da
outra parte, quantos ali é somente dor e quantos continuam movidos talvez
apenas por algum tipo de senso de dever ou coisa pior, no caso de não deixar o
caso cair no esquecimento!?! É uma constatação ou uma questão dura de ser abordada;
desnecessária? Até é, mas é apenas isto, uma análise, - mais um registro - não
um julgamento. Um questionar que a priori parece tão estúpido quanto vazio.
Em
meio a tanto, por estes dias, pensei algo que diz respeito a minha filosofia,
ao meu pensamento, algo a ver com o fato de as pessoas não pensarem que pode
acontecer com elas. Algo sobre a alienação nossa de cada dia – nestes tempos em
que exageradamente vemos aumentadas as ocorrências da violência gratuita. No
caso aqui, os pais e vítimas, principalmente, vivem o que chamo de Falsa Autossuficiência
Humana, onde caminhamos empurrados, mais conduzidos pelo externo; excessivamente
alheios a nossa vontade. Ainda que acreditemos ou somos levados a crer que o
somos por vontade própria, quando, de repente, o chão se abre aos nossos pés e
nos vemos totalmente desamparados, despreparados para o colapso eminente ou
ocorrido, e pior, ao olharmos para os lados, percebemos que não estamos sós,
porém, não eram estas as companhias que queríamos – ou necessitamos. O que
temos é um grupo pequeno ou grande de iguais tão desesperados quanto; quando,
ainda que não pensamos nisso, aqueles que nos conduziram até ali, prometendo
proteção, se não cobrados, (ainda que cobrados pouco farão) o máximo que teremos
deles é um sobrevoo de helicóptero sobre a área atingida e se não lembrados,
instigados, - incansavelmente e massivamente - de seus deveres, de suas responsabilidades,
de suas promessas, esgueirar-se-ão, e nem mesmo pousarão a nave nas
proximidades.
Ninguém
perceberá isso, porque, esses condutores nato sabem que não tardará para todo o
resto; todo o contingente populacional que se apinha nos muros e ruas em
protestos; alheios nos trens, e filas, sejam de hospitais ou para comprar o ingresso
para qualquer próximo evento, que engarrafado sob o sol forte esbraveja e
continuam em busca de passar mais um dia cumprindo obrigatoriamente e
impensadamente seu dever, logo voltarão seus olhos para seus afazeres sem, mais
um vez, se dar conta que, na sua vez de lidar com a tragédia, enfrentarão o
mesmo problema do abandono de todo mundo, sem mesmo ter tempo de prestar
atenção mais uma vez de como tudo isso se dá como se dá.
*
Temor;
vivemos com medo, mas não temos tempo de curtir esse medo, muito menos de
entendê-lo como se dá e que, a qualquer momento ele se realizará, e estaremos
sós.
*
Todo
o mau protetor quer que o esqueçam, quando é a vez dele cumprir o que somente a
ele cabe.

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