sábado, 1 de fevereiro de 2014

Kiss; um ano depois




A roda mascarada da autossuficiência

Esta semana a cidade de Sta. Maria se manifestou em polvorosa após um ano da tragédia na boate. Entre tantos absurdos assistidos, tiro algumas conclusões (não irei me demorar aqui na batida: “o que aprendemos com...”). A maioria delas voltada ao que já conhecemos: descaso; injustiça; fazer o que?; até onde a justiça fará diferença; e para aqueles que foram indiciados, 28 ao que parece, - e para algumas dezenas que rezam para que as esqueçam - algumas questões fundamentais permanecem.

Quantos pensarão algo de valor – com inteligência - sobre sua responsabilidade no ocorrido; sobre o que deveriam ter ou não ter feito, e assim por diante? Ou, da outra parte, quantos ali é somente dor e quantos continuam movidos talvez apenas por algum tipo de senso de dever ou coisa pior, no caso de não deixar o caso cair no esquecimento!?! É uma constatação ou uma questão dura de ser abordada; desnecessária? Até é, mas é apenas isto, uma análise, - mais um registro - não um julgamento. Um questionar que a priori parece tão estúpido quanto vazio.

Em meio a tanto, por estes dias, pensei algo que diz respeito a minha filosofia, ao meu pensamento, algo a ver com o fato de as pessoas não pensarem que pode acontecer com elas. Algo sobre a alienação nossa de cada dia – nestes tempos em que exageradamente vemos aumentadas as ocorrências da violência gratuita. No caso aqui, os pais e vítimas, principalmente, vivem o que chamo de Falsa Autossuficiência Humana, onde caminhamos empurrados, mais conduzidos pelo externo; excessivamente alheios a nossa vontade. Ainda que acreditemos ou somos levados a crer que o somos por vontade própria, quando, de repente, o chão se abre aos nossos pés e nos vemos totalmente desamparados, despreparados para o colapso eminente ou ocorrido, e pior, ao olharmos para os lados, percebemos que não estamos sós, porém, não eram estas as companhias que queríamos – ou necessitamos. O que temos é um grupo pequeno ou grande de iguais tão desesperados quanto; quando, ainda que não pensamos nisso, aqueles que nos conduziram até ali, prometendo proteção, se não cobrados, (ainda que cobrados pouco farão) o máximo que teremos deles é um sobrevoo de helicóptero sobre a área atingida e se não lembrados, instigados, - incansavelmente e massivamente - de seus deveres, de suas responsabilidades, de suas promessas, esgueirar-se-ão, e nem mesmo pousarão a nave nas proximidades.

Ninguém perceberá isso, porque, esses condutores nato sabem que não tardará para todo o resto; todo o contingente populacional que se apinha nos muros e ruas em protestos; alheios nos trens, e filas, sejam de hospitais ou para comprar o ingresso para qualquer próximo evento, que engarrafado sob o sol forte esbraveja e continuam em busca de passar mais um dia cumprindo obrigatoriamente e impensadamente seu dever, logo voltarão seus olhos para seus afazeres sem, mais um vez, se dar conta que, na sua vez de lidar com a tragédia, enfrentarão o mesmo problema do abandono de todo mundo, sem mesmo ter tempo de prestar atenção mais uma vez de como tudo isso se dá como se dá.

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Temor; vivemos com medo, mas não temos tempo de curtir esse medo, muito menos de entendê-lo como se dá e que, a qualquer momento ele se realizará, e estaremos sós.

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Todo o mau protetor quer que o esqueçam, quando é a vez dele cumprir o que somente a ele cabe.

 

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