sábado, 22 de fevereiro de 2014

Fuiii!




        Jamais pensei em fazer deste um trabalho sério. E assim termino; basta – alinhavando – observar o título.

Quase todos os textos ou frases aqui registrados são pequenas explosões, pequenas catarses, provocadas, mais, de indignações repentinas e algumas vezes até descuidadas, por representar um primeiro jorro de impropriedades originadas do assistido, do lido, do observado no externo.

Em algumas situações, muito do contexto final não passa disso – aliás, este era o objetivo primeiro: um momento/divã, um momento de expelir o veneno interno formado da indignação, do acinte a inteligência, da falta de vergonha, da pachorra, do abuso, da falta de cuidado, da falta de critério, do descompromisso geral, do entender ótimo o medíocre, do entender aceitável o que não passa de lixo, da injustiça, para com um grupo ou todo um estado de coisas – na linguagem colocada em forma de opinião, que considero, toda própria.

A pretensão única era a de falar para eu próprio, uma espécie de meditação, uma espécie de beliscão, como se eu precisasse disso para acreditar, ver, manter-me acordado do que estava acontecendo. Como se as palavras aqui dispostas, as ideias formatadas: mantivessem-me alheio, fora, não comungando com os absurdos assistidos.

Portanto, isto tudo aqui (da primeira postagem até agora) é do autor para o autor, porém o fato de fazer este “registro público” faz do autor um esnobe, por se entender digno de observação, (ou querer-se observado) – aqui um primeiro e mais importante sinal de que este trabalho de “análise” precisa cessar.

Se é do autor para o autor, como bem disse um amigo: “ele pode ser feito no caderno”; ou seja, se ele ajuda, se é para servir como um tipo de meditação, ele pode ser continuado dentro, apenas, de quatro paredes.

Ponderei estes aspectos, tanto interno quanto externo e cheguei a um último, mais poético, mais valoroso - ainda que bastante salpicado (empanado?) de esnobismo. Ouvi, em algum momento recente, que um respeitado indivíduo pararia com sua coluna devido ao fato de não haver mais sentido escrever sobre uma de suas especialidades. Apreciava o cara na época; e passei a fazê-lo com mais respeito a partir de então, por admirar a sua atitude – que entendi como ousada e original -, assim, encontrei nele também: um motivo a mais para encerrar este momento - quem sabe até para mostrar respeito com tudo o que foi feito. Comentou também, esse colunista, que em determinada situação perde a graça. Não reafirmo apenas isso, mas acrescendo que todo esse processo acaba cansando; fica essa situação de repetição. Os únicos que não se enchem, não se fartam, não se incomodam com a repetição são estes calhordas sínicos que insistem em se aproveitar da situação caótica instalada, que, ainda que lhes proporcionem os excessos; é um estado de coisas que sobrevive agonizando.

Somo às palavras dele o fato de não haver sentido em manter este espaço. Vivemos um estado onde, para haver mudança é preciso ou algum tipo de lavagem cerebral, pois a piada rápida apenas diverte por alguns segundos. E a crítica ali inserida, fará apenas com que as pessoas riem, alguns se admirem e uma boa parte nenhum dos dois; ou que aconteça uma catástrofe, porém é certo que mesmo delas o resultado continua sendo um “chocolate”[1] a favor da minoria estável no sentido de se aproveitarem do ocorrido e pouco fazer para amenizar o massacre sofrido pelo volume maior de atingidos.

Aliás, este que era para ser um espaço de análise; onde eu faria um contato com minha caneta ou o meu teclado e então espaireceria, voltava às boas com a minha revolta, vem acontecendo exatamente o contrário; ao ver as barbaridades avolumando-se nas páginas dos jornais, mais vontade ainda, mais indignação, mais revolta tem rondado meu espírito.

        Definitivamente, não está dando certo, não estou tendo resultado com este exercício (remédio) auto aplicado. Por outro lado posso estar contribuindo com os excessos, e isto não está parecendo ser bom nem está resolvendo o problema de ninguém.

        Aprendi que nossos atos são poderosos, mesmo os mais insignificantes, e deles, todos, resultam energias, assim, se uma proposta que era para transformar algo ruim em bom não se mostra eficaz, a inteligência manda, a natureza sã procura um caminho outro para sanar o problema.

        De maduro, às portas do velho; recordo-me do início, na chegada em Curitiba, no primeiro emprego. Tinha o privilégio de semanalmente deliciar-me com a coluna do Millôr. Fui iniciado através das páginas da Folha de Londrina, onde havia uma coluna semanal deste mestre inabalável.

        Aprendi com ele a desconstruir o sistema, de métrica, rima e estética – jamais que isso tudo não era importante, porém que não era nada importante. E a construir uma consciência crítica em um cidadãozinho de dezenove anos, super interiorano. Afirmo que as ideias do Millôr foram responsáveis por algo que alguns filósofos afirmam ser o dever de todo o homem: Dar um passo para fora da coisificação.

        Ainda hoje tenho os recortes. Fazia-o, escondido da chefa. Lia e relia aqueles garranchos, aquele amontoado de palavras que vista ao longe não faziam sentido algum – muitos nem de perto o viam – por destoar da formatação comum de um sistema jornalístico que hoje, parece, é a única ética que mantém: a estética afinada, trabalhada, exageradamente cobrada antes de ser apresentado ao leitor. Com suas torturas na escrita ele mostrava as torturas do sistema humano (peço perdão aqui por copiar ou parafrasear um ideias do meu amigo Amal), político, social, religioso et Cetera.

        Tentei algo aqui, porém não consigo desvencilhar-me da emoção, do sentimento. Que me desculpe o Millôr, mas ele fazia tudo parecer tão profissional. Parece-me que tudo o que faço descamba para o pessoal, ainda que consiga manter-me alheio a tudo sem mover outras partes do corpo a não ser a mão que escreve.

Venho também, ao longo da última década, naturalmente, observando aqueles que compactuam do meu pensar, ainda que não imaginem a minha existência, e portanto, ao ler alguns destes textos com suas opiniões contundentes, destas pessoas que considero imparciais, que, me parece, buscam uma equanimidade de pensamento voltado ao equilíbrio da convivência social, fazerem uma demonstração clara e visceral, e até estarrecedora do país e do mundo, e nada acontece.

Ninguém houve ou dá vazão a estas verdadeiras sumidades, a estes visionários que entendem; que conhecem; que sabem do que estão falando por terem estudado, e não por mero interesse de partido, seja ele qual for. Se a estes não se dá crédito, de que adianta ser mais um a demonstrar o que ninguém quer saber? O que estarrece ainda mais, é que estes textos, não são encontrado apenas em páginas aleatórias da internet, ou de pretensos apóstolos do insolucionável, em sites de comentários tolos, nada, podemos encontrar boas ideias nas páginas de jornais e revistas altamente tendenciosos, – mesmos os mais importantes do país ou do mundo - o que aguça ainda mais a nossa revolta, afinal, muitos tem acesso ao texto, e ainda assim nada é posto realmente em discussão.

        Despeço-me então, pedindo perdão a alguém que tenha se sentido desconfortável com alguma colocação ou até a um que outro que observava a construção das ideias - nosso exercício - com algum interesse, fazendo uma última observação, aludindo a um foro que poderia asserenar os ânimos, relembrando então algumas doutrinas que advertem que nossa existência no planeta não foge muito de uma espécie de experiência; que tudo o que vivemos não passa de uma prática. De ações que nos levam a por em prática um cabedal de informações disponível a todos, somado a inteligência, ao conhecimento adquirido de cada individuo. Levando em consideração esta verdade, me parece bastante oportuno abandonar meus excessos aqui; com as minhas observações, que mais é um repetir que instiga o mal que promulga o bem. Assim, não posso deixar de anotar que algumas das experiências que viemos provocando, que ainda que pareçam – confiadamente - aceitáveis, por aqueles que as excitam: é certo que flertam demasiado, com perigos insondáveis.

*

Pra completar, uma frase que encontrei dia destes folheando uma destas revistas de hall de consultório e atribuída ao primeiro ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Junckler, “Todos sabemos como superar a crise europeia; apenas não sabemos como fazer isso e ganhar a próxima eleição”. Esta declaração; entendo ser, ainda que se destine particularmente ao campo político, a síntese também do panorama sócio econômico brasileiro e mundial, devido, principalmente a falta de comprometimento com o futuro do estado. Todos querem colher os louros de seus feitos; ninguém mais faz nada pensando em continuar tendo seu nome honrado, apenas, postumamente.    




[1] A expressão chocolate é usada quando um time goleia o outro com certa facilidade dando um vareio, um banho, uma surra; quando vence com folga, e comenta-se que o placar foi elástico com dribles desconcertantes e restou ao time adversário, praticamente, ficar só olhando.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Para encerrar

 
 
Não temo nada.
 
Se tivesse de temer algo
seria o poder dado ao ignorante,
ao que não tem cultura.
Porém se isso temesse,
não poderia mais dormir. 
A.S.                     

 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Barbaridades



 

Há poucos dias houve uma exposição de fotos, principalmente de fotógrafos free lance que participaram das últimas manifestações de ruas.

Entendi a ideia como válida, sempre é bom incentivar um bom trabalho, e digo que muitas fotos lá expostas mereceram as devidas comendas.

Acredito que isto incentive – e muito – que mais pessoas participem, além dos fotojornalistas oficiais, não apenas na cobertura, mas com a intenção única, como falou um destes novos personagens, de, principalmente, obter uma boa foto.

Ok, como diz a música, “tá tudo muito bem, tá tudo muito bom, mas realmente...” o que não pode ser negligenciado é o fato de que em algumas destas manifestações estamos lidando com um verdadeiro campo de guerra.

E isto significa que nossos “bravos” guerreiros; seja profissionais voltados a cobertura, o cara safo buscando a melhor película, ou mesmo algum “bobo-alegre”, entendendo patavina do que está acontecendo ou preocupado apenas com uma visão focada, qual animal de carga que usa tapa olhos para não distrair-se; não pode manter-se alheio ao anseio bárbaro de manifestantes e polícia, por exemplo.

Ontem um profissional da Band foi atingido em cheio por um destes morteiros que vagam alheios após aceso. A visão é bárbara, - alguém estava a postos e flagrou o instante - e o caso é sério, e independente de este cidadão ser um profissional responsável ou não, isso não vem ao caso, fato é que estamos solidários com a dor dos familiares, porém é preciso que algumas das barbaridades que foram ditas na imprensa hoje sejam reavaliadas.

 É claro que toda a classe jornalista deva estar revoltada neste momento, mas nem por isso eles podem falar o que querem sem que sejam observados e criticados em declarações que nem de perto são dignas de pessoas estudadas e de conhecimento íntegro.

Digo que em alguns casos, mais pareceu – mais uma vez – que os repórteres e profissionais da imprensa, em alguns casos, aproveitaram o instante para uma oportunidade desavergonhada de destilar o lado hipócrita da profissão – espero que eu esteja enganado.

Refiro-me ao fato de que na sua maioria, estes profissionais intocáveis, – tidos como preparados - registraram o fato como um ataque a imprensa, um ataque aos direitos de expressão. Um cala-boca ou mesmo uma ação inapropriada e desavergonhada e deliberadamente contra o direito a liberdade de expressão.

Que absurdo.

Em uma emissora, pediram desculpas por ontem “no calor dos acontecimentos”, terem atribuído a culpa aos policias, e hoje? Ainda estamos no calor dos acontecimentos que devemos entender que um morteiro sem direção foi lançado propositalmente contra um jornalista?

Deve-se, é justo, procurar o culpado e enquadrá-lo, mas não por ter atingido “um jornalista”; - a bomba não era teleguiada, qualquer um poderia ter se ferido - mas sim, prender o autor e julgá-lo por seu ato, no mínimo, irresponsável, por saber o risco que corria ao acender o artefato.


Vivemos um momento bastante complicado socialmente. É visto que o desgoverno por ineficiência não vai dar conta do recado. São tempos de mudanças, etc. e tal e todo aquele blá, blá, blá manjado; porém era preciso que principalmente a imprensa, como uma das poucas instituições com profissionais em seus quadros com verdadeiro conhecimento de causa, - por participar ativamente de tudo o que acontece no mundo - deixasse para lá estas ignorantes reportagens de caderno marrom, de apoteose a violência, da preocupação com o índice de audiência, e começasse algum trabalho de conscientização da moral, da ética e de como deveremos restabelecer, redesenhar o caminho para este milênio que se inicia bárbaro, controverso, animoso, desconfiado e inquieto, não somente no Brasil, pois sofremos isto em boa parte do mundo moderno, porque, do contrário, corem o risco de não terem audiência, emprego ou quem sabe, nem mesmo a instituição como a conhecemos agora resista se nada for pensado, se não tivermos uma pró ação inteligente e corajosa a este respeito.
A imprensa tem o poder o que ela não tem é coragem ou homens preparados para os turbulentos tempos de agora – e assim sempre foi.

E assim sempre será?

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Kiss; um ano depois




A roda mascarada da autossuficiência

Esta semana a cidade de Sta. Maria se manifestou em polvorosa após um ano da tragédia na boate. Entre tantos absurdos assistidos, tiro algumas conclusões (não irei me demorar aqui na batida: “o que aprendemos com...”). A maioria delas voltada ao que já conhecemos: descaso; injustiça; fazer o que?; até onde a justiça fará diferença; e para aqueles que foram indiciados, 28 ao que parece, - e para algumas dezenas que rezam para que as esqueçam - algumas questões fundamentais permanecem.

Quantos pensarão algo de valor – com inteligência - sobre sua responsabilidade no ocorrido; sobre o que deveriam ter ou não ter feito, e assim por diante? Ou, da outra parte, quantos ali é somente dor e quantos continuam movidos talvez apenas por algum tipo de senso de dever ou coisa pior, no caso de não deixar o caso cair no esquecimento!?! É uma constatação ou uma questão dura de ser abordada; desnecessária? Até é, mas é apenas isto, uma análise, - mais um registro - não um julgamento. Um questionar que a priori parece tão estúpido quanto vazio.

Em meio a tanto, por estes dias, pensei algo que diz respeito a minha filosofia, ao meu pensamento, algo a ver com o fato de as pessoas não pensarem que pode acontecer com elas. Algo sobre a alienação nossa de cada dia – nestes tempos em que exageradamente vemos aumentadas as ocorrências da violência gratuita. No caso aqui, os pais e vítimas, principalmente, vivem o que chamo de Falsa Autossuficiência Humana, onde caminhamos empurrados, mais conduzidos pelo externo; excessivamente alheios a nossa vontade. Ainda que acreditemos ou somos levados a crer que o somos por vontade própria, quando, de repente, o chão se abre aos nossos pés e nos vemos totalmente desamparados, despreparados para o colapso eminente ou ocorrido, e pior, ao olharmos para os lados, percebemos que não estamos sós, porém, não eram estas as companhias que queríamos – ou necessitamos. O que temos é um grupo pequeno ou grande de iguais tão desesperados quanto; quando, ainda que não pensamos nisso, aqueles que nos conduziram até ali, prometendo proteção, se não cobrados, (ainda que cobrados pouco farão) o máximo que teremos deles é um sobrevoo de helicóptero sobre a área atingida e se não lembrados, instigados, - incansavelmente e massivamente - de seus deveres, de suas responsabilidades, de suas promessas, esgueirar-se-ão, e nem mesmo pousarão a nave nas proximidades.

Ninguém perceberá isso, porque, esses condutores nato sabem que não tardará para todo o resto; todo o contingente populacional que se apinha nos muros e ruas em protestos; alheios nos trens, e filas, sejam de hospitais ou para comprar o ingresso para qualquer próximo evento, que engarrafado sob o sol forte esbraveja e continuam em busca de passar mais um dia cumprindo obrigatoriamente e impensadamente seu dever, logo voltarão seus olhos para seus afazeres sem, mais um vez, se dar conta que, na sua vez de lidar com a tragédia, enfrentarão o mesmo problema do abandono de todo mundo, sem mesmo ter tempo de prestar atenção mais uma vez de como tudo isso se dá como se dá.

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Temor; vivemos com medo, mas não temos tempo de curtir esse medo, muito menos de entendê-lo como se dá e que, a qualquer momento ele se realizará, e estaremos sós.

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Todo o mau protetor quer que o esqueçam, quando é a vez dele cumprir o que somente a ele cabe.