Caro Sr. Roger Waters
Poderia dizer que temo que o senhor esteja perdendo
seu tempo, porém, tenho quase certeza disso.
Dificilmente o Gil e o Caetano lhe darão ouvidos; é
preciso que muita gente mesmo, mas muita gente; filie-se a corrente “#cancela Caetano & Gilberto Gil”,
por exemplo, para que estes dois desistam de ir à Israel.
Meu caro amigo; ainda sou seu fã, apesar de sua
declaração infeliz ao elogiar a nossa política na sua última turnê em 2012.
Porém nós os brasileiros, o senhor precisa saber e
vai descobrir agora, não somos um povo de opiniões contundentes. Somos uma
miscelânea de povos sem uma ideia de pátria, - aprendemos a assim conviver e
nos suportar - e, portanto, vivemos em cima do muro como pobres que nada têm e “curtindo”
uma hipocrisia estúpida que entendemos ser a única capaz de manter a boa
vizinhança.
Estes dois autores o senhor tem razão, são ótimos,
fazem parte do melhor que temos, porém são pessoas que envelheceram mantendo a
cultura hippie, com todo o respeito aos hippies. Mas não comungam de uma
personalidade forte, de alguém aguerrido a um processo descente fora da arte;
seus engajamentos vão, ao máximo, até dar uma canja sem comprometer-se com o status quo no final do evento; não perca seu tempo.
Mas valeu seu recado. Sua carta é muito boa; até
desfez um pouco minha opinião sobre as suas últimas declarações aqui no Brasil.
Tem muita energia e tem muita vontade; energia nós temos, mas não para essas
coisas de bronca séria, e nossa vontade é limitadíssima...
...a bem da verdade, senhor Roger, nós somos um
bando de cagões, talvez o senhor entenda melhor se dissermos que aqui não temos
culhões, ou culhones; abraços.
*
Chance perdida de mostrar que podemos ser mais
Hoje
às 11h51 - Atualizada hoje às 12h03
Roger
Waters pede que Caetano e Gil cancelem show em Israel
O
ex-baixista do Pink Floyd, Roger Waters fez um pedido para que Caetano Veloso e
Gilberto Gil cancelem seus shows em Tel Aviv, em Israel, no dia 28 de junho,
parte da turnê internacional. Em uma carta aberta, o baixista fez o pedido de
boicote alegando que os mortos e aprisionados estendem as mãos para eles.
De
acordo com Waters, os brasileiros são focos de luz para o resto do mundo.
"Caros Gilberto e Caetano, os aprisionados e os mortos estendem as mãos.
Por favor, unam-se a nós cancelando seu show em Israel. De tantas maneiras,
vocês são um foco de luz para o resto do mundo", disse em sua carta.
A
carta, divulgada pelo BDS ("boicote, desenvolvimento e sanções"), um
movimento interncaional que pressiona Israel para acabar com as ocupações em
territórios palestinos, o músico acredita que o mundo esteja com uma
oportunidade significativa para mudar a situação. "Após o ataque brutal de
Israel à população palestina de Gaza, no último verão, a opinião pública,
acertadamente, pendeu a favor das vítimas, a favor dos oprimidos e dos sem
privilégios, a favor dos aprisionados e mortos", ele declarou.
Quando
olho para suas fotos, escuto suas músicas, leio a história de suas lutas
pessoais e profissionais, lembro de todas as lutas de todos os povos que
resistiram a um domínio imperial, militar e colonial através do milênio, que
lutaram pelos aprisionados e pelos mortos. Nunca foi fácil, mas sempre foi
certo.
Em
uma de suas músicas, Gil, você menciona o arcebispo Desmond Tutu. Eu não falo
português, mas assumo que vocês dois aplaudam a resistência do arcebispo Tutu
ao racismo e ao apartheid que acabaram derrubados na África do Sul. Eram dias
impetuosos, quando a comunidade mundial de artistas estava lado a lado com seus
irmãos e irmãs oprimidos na África. Nós, os músicos, lideramos o levante
naquele momento, em apoio a Nelson Mandela, a ANC, ao povo africano oprimido e
a todos os aprisionados e mortos.
Estamos
diante de uma oportunidade igualmente significativa agora. Estamos em um ponto
culminante. Aqueles de nós que estamos convencidos que o direito a uma vida
humana decente e à autodeterminação política devem ser universais estamos, em
consonância com 139 nações da Assembleia Geral da ONU, focados na Palestina.
Após
o ataque brutal de Israel à população palestina de Gaza, no último verão, a
opinião pública, acertadamente, pendeu a favor das vítimas, a favor dos
oprimidos e dos sem privilégios, a favor dos aprisionados e mortos.
O
primeiro-ministro de Israel, Netanyahu, com seu governo de extrema-direita,
lembra-me da história da "Nova roupa do imperador"; com certeza nunca
houve um gabinete mais exposto em sua calúnia como este. Eles se condenam mais
a cada fôlego, a cada discurso racista. "Olha, mamãe, o imperador está
nu!"
Tive
a oportunidade, recentemente, de escrever uma carta a um jovem artista inglês,
Robbie Williams; eu compartilhei com ele o destino de quatro jovens palestinos
que jogavam futebol numa praia de Gaza, mortos por artilharia israelense. Por que
eu traria à tona uma praia e futebol? Por quê? Porque eu amo o Brasil, eu tenho
a praia de Ipanema nos olhos da minha mente; eu lembro de shows que fiz em São
Paulo, Porto Alegre, Manaus e Rio. Como poderia esquecê-los? Eu tenho uma
camiseta de futebol, assinada: "para Roger, de seu fã Pelé".
Quando
estive aí pela última vez, uma criança inocente tinha acabado de ser morta,
arrastada por um carro dirigido por criminosos que escapavam da cena do crime.
O remorso nacional era palpável, era todo abrangente, vocês, todos vocês,
importavam-se com aquela pobre criança. De tantas maneiras, vocês são um foco
de luz para o resto do mundo.
Como
vocês sabem, artistas internacionais preocupados com direitos humanos na África
do Sul do apartheid se recusaram a atravessar a linha de piquete para tocar em
Sun City. Naqueles dias, Little Steven, Bruce Springsteen e cinquenta ou mais
músicos protestaram contra a opressão cruel e racista dos nativos da África do
Sul. Aqueles artistas ajudaram a ganhar aquela batalha, e nós, do movimento
não-violento de Boicote, Desinvestimentos e Sanções (BDS) pela liberdade,
justiça e igualdade dos palestinos, vamos ganhar esta contra as políticas
similarmente racistas e colonialistas do governo de ocupação de Israel. Vamos
continuar a pressionar adiante, a favor de direitos iguais para todos os povos
da Terra Santa. Do mesmo modo que músicos não iam tocar em Sun City, cada vez
mais não vamos tocar em Tel Aviv. Não há lugar hoje no mundo para outro regime
racista de apartheid.
Quando
tudo isso acabar, nós iremos à Terra Santa, cantaremos nossas músicas de amor e
solidariedade, olharemos as estrelas através das folhas das oliveiras,
sentiremos o cheiro da madeira queimando das fogueiras de nossos anfitriões,
estimaremos essa lendária hospitalidade.
Mas,
até que isso termine, até que todos os povos sejam livres, nós vamos fincar
nosso emblema na areia, há uma linha que não cruzaremos, nós não vamos entreter
as cortes do rei tirano.
Caros
Gilberto e Caetano, os aprisionados e os mortos estendem as mãos. Por favor,
unam-se a nós cancelando seu show em Israel.